Reportagens Diocesanas
publicado em: 18/05/2019
EIS QUE FAÇO NOVAS TODAS AS COISAS POR DOM RUBENS SEVILHA, OCD

A Palavra de Deus da liturgia deste 5º Domingo da Páscoa começa com o livro dos Atos dos Apóstolos nos alertando que “é preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” (At 14,22). Curiosamente o texto afirma que São Paulo e São Barnabé estavam “encorajando os discípulos” (v.22) a permanecerem firmes na fé. Hoje em dia dizer para alguém que é preciso passar por muitos sofrimentos, soará como uma irônica ofensa.

    O sofrimento por algo bom e justo causa libertação e paz. Quando, pelo contrário, tem sua origem e execução motivadas pelo que é mau e injusto, causa escravidão e infelicidade. Percebemos aqui que o nosso problema não é o sofrimento em si mesmo, mas sua origem e motivação.

    Creio que metade do sofrimento humano é inútil e sem sentido, por ser provocado por nós mesmos quando damos demasiada importância ao que é secundário e ilusório, causando assim enorme desgaste de energia, desperdiçando as forças que deveriam servir para impulsionar e fortalecer a luta da vida. O homem moderno se esqueceu que a coragem é uma virtude. Não se deveria usar a palavra “coragem” quando se realiza o mal, pois ela se aplica somente para o bem. Para a execução do mal teremos palavras tais como: imprudência, desequilíbrio, irresponsabilidade.

    São Paulo afirma que esses muitos sofrimentos nos fazem entrar no Reino de Deus. A segunda leitura, tirada do Apocalipse, nos fala sobre o novo céu e a nova terra (Ap 21,1), onde Deus enxugará toda lágrima dos olhos, a morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem choro, nem dor, porque passou o que havia antes (v.4). Maravilhosa mensagem divina nos ensinando que também através dos inevitáveis sofrimentos da condição humana, Deus vai transformando tudo em alegria e paz.

    O segredo da existência humana está exatamente aqui: onde está Deus, tudo se transforma em felicidade e paz. “Esta é a morada de Deus entre os homens. Deus veio morar no meio deles. Eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles” (v.3).

    Somente na fé é possível ser feliz estando ao mesmo tempo no meio de muitos sofrimentos. Somente na fé, como também no amor, felicidade e sofrimento não se excluem. A carne sofre, as emoções sofrem, mas o profundo da alma está em paz, segurando firmemente nas mãos do Pai que ama com amor eterno cada um de nós,  seus filhos e filhas.

    A pessoa livre, isto é, aquela que tem fé profunda, torna-se canal do amor de Deus. Quem está aberto para Deus, necessariamente será uma pessoa que “espontaneamente” ama com amor verdadeiro todas as pessoas ao seu lado. Aliás, a capacidade, qualidade e quantidade de amor em uma pessoa é o verdadeiro e único termômetro da sua fé. Afirmou Jesus: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,25).

    O amor cristão não é um amor qualquer. Hoje a palavra amor está encharcada de muitos sentidos e significados. É preciso enxugar e precisar a palavra amor. O amor cristão é amar como Jesus amou. No Antigo Testamento temos o mandamento de amar o próximo como a si mesmo. No Novo Testamento a exigência se torna maior, pois não se trata de somente amar o outro como amamos a nós mesmos, mas amar como o próprio Jesus amou. “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar uns aos outros” (Jo 13,34).

 Dom Rubens Sevilha, OCD.

Artigo publicado na coluna "Conversando com o Bispo" no Jornal da Cidade de 19 de maio de 2019.