Entrevista
aborda Campanha da Fraternidade
O
boletim radiofônico Notícias Diocesanas apresentou, em sua
edição especial – que foi ao ar nos dias 28 e 29 de fevereiro –
uma entrevista com Francisco Ferreira Nunes, coordenador diocesano da
Campanha da Fraternidade em Bauru. O programa de número 48 foi
produzido e apresentado por Luís Henrique Marques, jornalista e
professor, também membro da Pastoral da Comunicação Diocesana. Na
pauta, o tema “Água e Fraternidade” e o lema “Água, fonte de
vida” da Campanha da Fraternidade 2004.
O que é e como nasceu a Campanha da
Fraternidade?
A
Campanha da Fraternidade é um momento forte de evangelização da
Igreja no Brasil. E a Campanha nasceu como tem nascido grandes invenções
e descobertas: por acaso. Em 1961, três padres responsáveis pela
Caritas Brasileira realizaram uma campanha para arrecadar fundos para
as atividades assistenciais e promocionais da instituição e torná-la
autônoma financeiramente. A atividade foi chamada de Campanha da
Fraternidade e foi realizada pela primeira vez na Quaresma de 1962 em
Natal, Rio Grande do Norte, com a adesão de outras três dioceses. No
ano seguinte, 1963, 16 dioceses do nordeste realizaram a campanha. Não
teve êxito financeiro. Estávamos no início do Concílio Vaticano II
e, por coincidência, nossos bispos participando do Concílio se
reuniam sempre em uma mesma casa em Roma e puderam discutir a questão
da Campanha da Fraternidade, dessa experiência nova realizada no
Estado do Rio Grande do Norte. Chegaram a conclusão de que aquele
objetivo inicial de fazer a campanha para angariar subsídios para
atender às necessidades sociais da Igreja, não atingiu o objetivo,
mas que a questão pastoral foi bem-sucedida. Então valeu como
recurso pedagógico dinâmico de levar o povo a refletir, a rezar,
enfim, a buscar soluções para seus próprios problemas. Daí a
Campanha da Fraternidade tomou mais corpo e os senhores bispos
reunidos resolveram aprovar a Campanha da Fraternidade no dia 26 de
dezembro de 1963 para todo o Brasil. E a Campanha foi realizada em nível
nacional na Quaresma de 1964, como o tema “Lembre-se, você também
é Igreja”.
Como a
Campanha da Fraternidade está organizada e tem sido realizada no país
e, em especial, na Diocese de Bauru nos últimos anos?
A
Campanha da Fraternidade tem uma organização que, graças a
Deus, ajuda muito no êxito que tem tido durante todos esses 40 anos
de trabalho. Ela está organizada a nível nacional, com uma equipe
que funciona em Brasília. A CNBB é divida em regiões, tanto que o
Estado de São Paulo é o Regional Sul 1. Então tem a coordenação
nacional e cada região da CNBB tem a sua coordenação. Nós temos em
São Paulo. Tem a coordenação diocesana também, da qual eu sou o
coordenador. Somos em cinco pessoas: eu e minha esposa (Weide), Gérson
e Mércia, da paróquia Santa Rita de Cássia e a René, da paróquia
do Sagrado Coração de Jesus. Nós temos como objetivo e missão
desenvolver uma dinâmica que leve entusiasmo às coordenações
paroquiais. Cada paróquia deve ter também a sua coordenação. Nós
fazemos uma preparação estadual durante três dias em Itaici, no mês
de outubro. Ouvimos todas as informações, vemos material e nos
munimos de recursos e voltamos para nossas sedes. Aqui organizamos a
nossa preparação diocesana, que aconteceu no dia 9 de novembro de
2003, na Universidade do Sagrado Coração. A partir daí, passamos a
fazer a preparação diocesana por Região Pastoral. Vamos lembrar que
a Diocese de Bauru está dividas em oito Regiões Pastorais. Fizemos
uma programação de seis
reuniões e o êxito foi muito grande. O resultado dos encontros nos
entusiasma e nos encoraja a continuar este trabalho que tem rendido
bastante frutos.
A Campanha da
Fraternidade, tradicionalmente, tem tratado de
temas que envolvem as relações sociais. Por que este ano
optou-se por tratar do tema água?
O
problema da água no mundo é tão sério que a ONU classificou a água
como um patrimônio do planeta. Todos nós como co-proprietários da
água temos o dever e a obrigação de zelar, defender e usá-la
racionalmente e preservá-la em boas condições de uso para as populações
presentes e futuras gerações. Para tanto, a ONU criou o Código de
Direto da Água e o dia da água, que é 22 de março. O tema água,
extrapola os limites do social e vai muito além, a água é vital. A
Igreja Católica, no exercício de sua tríplice função: profética,
sacerdotal e régia, já no ano de 1979, quando pouco se falava de
ecologia, apresentou como tema da Campanha da Fraternidade “Preserve
o que é de todos”. Portanto, esse trabalho em prol da ecologia, já
vem sendo realizado pela Igreja há mais de 20 anos.
O senhor
poderia apresentar um quadro sintético dos principais problemas que
envolvem a escassez da água no mundo? Quais as informações estatísticas
que o senhor tem a esse respeito, especialmente, em Bauru?
Há
muitos números, mas vamos procurar sintetizar. Nosso planeta tem 70%
de sua superfície coberta por água. Por isso, tanto do ponto de
vista poético, quanto do científico, a Terra é planeta Água. São
97,6% de água salgada e apenas 2,4% de água doce. A ONU afirma que
faltará água potável para 40% da humanidade no ano de 2050.
Especialistas antecipam esse prazo para 2025. não é apenas uma carência
quantitativa, mas também qualitativa. A destruição dos mananciais,
devido principalmente a destruição das matas ciliares, a contaminação
dos mananciais por agro-químicos e resíduos industriais, metais
pesados dos garimpos, esgotos urbanos e hospitalares, além do aumento
no consumo na agricultura com a irrigação – para se ter uma idéia
para se colher mil quilos de grãos, são necessários um milhão de
litros de água – resíduos da pecuária, o consumo humano, tudo
isso projeta uma imagem de escassez progressiva das águas. No caso
específico de Bauru, podemos citar que o Rio Bauru, em épocas
passadas, atendeu 100% das necessidades da população. O Rio Batalha
também já teve seu período de glória, com recreação e pesca,
e ainda abastecia 100% da cidade de Bauru. Hoje, encontra-se agonizante,
o mato já está nascendo dentro de seu leito, a mata ciliar foi
devastada, as margens foram destruídas e todo esse material que cai
no leito assoreou o rio. O espelho d’água em alguns pontos é de
apenas 15 ou 20 centímetros e demais riachos e córregos de Bauru estão
sofrendo esse processo de destruição através do despejo de entulhos
de construções, desmatamento e falta completa do espírito de
cidadania do povo, que vai despejar lixo em suas margens. É bom
lembrar que, muitas vezes, as construtoras, com aquelas caçambas
lotadas de entulho, mandam despejar nos locais que a prefeitura
determinou, mas há o desvio desse material para um local próximo a
margem de um córrego, o que vai prejudicando o bom andamento dos
nossos recursos hídricos, que já são escassos. A maior parte da água
que abastece a população de Bauru é oriunda de poços artesianos,
que buscam água do aqüífero guarani, que também já está sofrendo
com a poluição. O aqüífero guarani, que é com certeza o maior
reservatório de água potável do mundo, na região de Bauru, segundo
dados oficiais, já baixou seu nível em 40 metros. Isso é muito
perigoso.
Eu gostaria
que o senhor completasse dizendo quais são as principais atitudes
negativas, sobretudo pessoais, que geram esse quadro?
O
grande prejuízo que nós temos com nossos recursos hídricos,
primeiramente é o desperdício, que pode ser minimizado. As pessoas
devem fazer uma revisão de suas atitudes. Veja bem, a Campanha da
Fraternidade apresentada, a CNBB o faz com a intenção de provocar a
reflexão e a mudança nas pessoas. É essa mudança que esperamos
para gerar economia da água, que é necessária para todos nós. No
simples escovar dos dentes, ao invés de abrir a torneira e deixar
aberta enquanto escova os dentes, abra a torneira, molhe a escova e
feche a torneira. Depois escove os dentes, abra a torneira e enxágue
a boca. Então não há a necessidade de deixar a torneira escorrendo.
No banho também. Quanta gente abre a torneira e só fecha quando
termina, meia hora depois. Isso também leva ao desperdício. Lavar a
calçada é desnecessário. Eu faço um apelo às pessoas para que
orientem suas empregadas domésticas para que evitem esse desperdício.
A gente sai de manhã e vê quanta gente com a mangueira jogando água
no asfalto, na calçada, conversando, sem se importar com aquele líquido
precioso que está sendo derramado. São essas pequenas coisas que vão
levar à grandes economias e ao benefício de toda a população.
Existem, por
outro lado, exemplos de iniciativas – ainda que isoladas – que
buscam superar a problemática da escassez de água?
A
Igreja Católica já vem trabalhando com esse problema da água no
Brasil há alguns anos e na região do semi-árido do nordeste vem
desenvolvendo uma campanha para a construção de cisternas para
captar a água da chuva. Essas cisternas têm um volume tal que
garantem às famílias que as possuem o uso de água durante oito
meses por ano. E quando a cisterna está acabando, aí novamente
chegam as chuvas, que não são fortes como aqui no sudeste, mas são
suficientes para abastecer as casas. Essas cisternas são objetivos da
Igreja. A Caritas apresentou o objetivo de construir um milhão dessas
cisternas. Muitos podem pensar que é uma utopia, mas a Igreja não
está parada, não está em silêncio e já construiu 200 mil dessas
cisternas no semi-árido brasileiro. Enquanto isso, aqui mesmo em São
Paulo, há lugares como Sorocaba, em que uma família construiu uma
casa com determinados critérios que capta toda a água da chuva, faz
tratamento, recicla a própria água para uso doméstico e não
precisa nem da água da municipalidade ou de poço. Esse é um exemplo
para que no futuro aumente o número de pessoas que captam e trabalham
a água da chuva.
O senhor gostaria de dizer algo mais
para encerrar esse bate-papo?
Após
essa Campanha da Fraternidade, que é “Fraternidade e Água” a
humanidade jamais poderá olhar para a água como olhava até agora.
É um novo tempo, que exige um novo olhar, uma nova postura. Cada um,
ao conjunto da Igreja e de toda a sociedade, deve ouvir Deus que nos
fala pela água e zelar pela espetacular natureza que Ele nos deu. O
futuro da humanidade e de todos os seres vivos está vitalmente ligado
ao futuro da água. “Água, fonte de vida”, preserve-a.
Serviço:
O
programa Notícias Diocesanas é transmitido pela Rádio Veritas FM
(102,7) sábado 12h e domingo às 8h30 (reapresentação). Informações
pelo e-mail: pascombauru@uol.com.br
ou pelo telefone (14) 9714-6658 – com Luís Henrique.
|