“A
multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém
considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas
tudo era posto em comum entre eles.” (At 4, 32)
Abandonar tudo: família, casa, trabalho, estudo, namoro,
amigos. E ter uma vida totalmente voltada para Deus, onde tudo
é partilhado, como acontecia nas primeiras comunidades cristãs.
É exatamente isto o que fazem pessoas comuns, rapazes e moças,
leigos, solteiros, casados, sacerdotes, religiosos e religiosas,
que decidem morar em comunidades de vida, com o objetivo de
viver o Evangelho de Jesus Cristo de maneira radical.
De
acordo com a Fraternidade, órgão responsável pelo contato
entre as comunidades brasileiras, atualmente existem 658
Comunidades de Vida no Brasil, que
se dedicam à evangelização através de várias
atividades, como artes, comunicação e formação espiritual. Há
25 anos, surgiu a primeira Comunidade de Vida no Brasil, a Canção
Nova, na cidade de Queluz (SP), no Vale do Paraíba.
É
difícil acreditar que no mundo de hoje seja possível viver da
maneira como os apóstolos de Jesus viviam há mais de dois mil
anos. Para o pároco da Paróquia Universitária, monsenhor
Enedir Moreira, o surgimento dessas comunidades se deve ao fato
de o mundo atualmente ser marcado pelo individualismo, que torna
o ser humano cada vez mais egoísta e indiferente às atitudes
solidárias. “A nossa vocação de cristãos é ir na contramão
mesmo. As primeiras comunidades cristãs viviam em comum, elas
faziam a partilha dos bens e da vida espiritual”, diz ele.
As
pessoas que ingressam nas comunidades de vida devem fazer uma
escolha entre os três estados de vida: o celibato, o sacerdócio
ou vida religiosa e a vida matrimonial. Toda Comunidade de Vida
é servida por pessoas que, apesar de atuarem nas mesmas
atividades de evangelização, não pretendem abandonar suas
casas e a atividade profissional. São os membros da chamada
Comunidade de Aliança.
Canção
Nova
A
Canção Nova surgiu em 1975, a partir do documento “Evangelização no
Mundo Contemporâneo” escrito pelo papa Paulo VI, que incentivava os fiéis
católicos para uma maneira nova de evangelizar. Depois de ter
contato com este documento, Pe. Jonas Abib, da diocese de
Lorena, teve a idéia de organizar encontros de formação para
jovens.
Depois
de dois anos trabalhando com estes encontros, ele sentiu que era
necessário dar um novo passo. “Tenho que lançar um desafio”, ele relata, no
site da Canção Nova. “Quem queria deixar sua família,
a sua casa e os seus estudos para morar junto comigo em
comunidade? Era tão absurdo que pensei: ‘Se aceitarem é
sinal de que o Senhor quer mesmo’”.
Feita a proposta, muitos jovens se mostraram
dispostos a aceitar o desafio, mas apenas 11 deles, juntamente
com o padre, realmente iniciaram a vida comunitária. Aos poucos
foi se definindo o carisma fundacional da nova comunidade, ou
seja, as características que ela possui para realizar a missão
do anúncio do Evangelho.
“A idéia inicial era simplesmente a vida comunitária”,
diz Fernando Ribeiro, Relações Públicas e membro da Canção
Nova. “Mas em 1980, adquiriu-se uma rádio em Cachoeira
Paulista e começou-se o trabalho com programas de rádio. Mas
era sem estrutura nenhuma, porque não tinha dinheiro”. Então
os membros da comunidade saíram pelo Brasil, nos grupos de oração
(núcleos locais do Movimento da Renovação Carismática Católica),
a fim de conseguir ajuda financeira para manter a rádio.
Em seguida, a Canção Nova
também começou a trabalhar com programas televisivos. No começo,
eram apenas algumas horas na TV Educativa do Rio de Janeiro. Mas
logo o tempo da programação religiosa da comunidade foi se
ampliando, inclusive em outros canais, até que, em 1989, foi
adquirida a TV Canção Nova, que atinge o Vale do Paraíba.
Atualmente, além da rádio e da TV, a comunidade também
trabalha com a Internet.
Desta
maneira, a Canção Nova se colocou exatamente no caminho
descrito pelo documento “Evangelização no Mundo Contemporâneo”,
que também aborda a questão da utilização dos meios de
comunicação pela Igreja no mundo moderno.
Inicialmente, não havia profissionais da área de
comunicação, mas hoje a comunidade investe na formação de
seus membros, possibilitando que alguns deles cursem faculdades
nesta área.
O núcleo da Canção Nova
está na cidade de Cachoeira Paulista, no Vale do Paraíba, onde
vivem cerca de 250 pessoas. Mas há um total de 23 casas
espalhadas por 11 Estados brasileiros, além das que se
localizam em Portugal e na Itália. Nestas casas, vivem, ao
todo, aproximadamente 600 pessoas e, a cada semestre, entra uma
média de 30 a 40 membros novos. Sem contar os que integram a
Comunidade Aliança, que são cerca de 300. Durante todo o ano,
a Canção Nova organiza acampamentos em Cachoeira Paulista, que
chegam a receber uma média de cinco a 20 mil visitantes por
evento.
Comunidade
Alfa e Omega
Na
diocese de Bauru, atua a Comunidade Alfa e Omega há três anos.
“Nós tínhamos paróquias com dificuldades há anos, sendo até
empurradas”, conta monsenhor Enedir Moreira. “E onde a
comunidade Alfa e Ômega começou a trabalhar, essas
dificuldades foram superadas”.
Esta comunidade surgiu após
um retiro de carnaval, em 1991, quando alguns membros de um
grupo de oração da cidade de Matão(SP) começaram um estudo
sobre a vida comunitária. Depois de dois anos, surgiu a
Comunidade de Vida. No início, havia apenas um casal, dois
jovens e um padre. Hoje, já são 47 membros e mais 120 na
Comunidade de Aliança.
A sede se localiza em Matão,
na diocese de São Carlos. A comunidade também tem casas
missionárias nas cidades de São Lourenço do Turvo, Arealva,
Avaí, Lucianópolis e Cabrália Paulista, além do Centro
Pastoral Cura D'Ars,
em Bauru.
Características
A maioria das comunidades de
vida possui características comuns, como a de ter se originado
da Renovação Carismática Católica, movimento que surgiu na
Igreja na década de 60. Seguindo a linha deste segmento, todas
elas tendem a ser conservadoras e levam seus membros a buscar
uma vida totalmente voltada para os valores religiosos.
Para entrar em uma
comunidade de vida, é preciso percorrer um caminho de
discernimento vocacional semelhante aos das congregações
religiosas tradicionais. A diferença das comunidades de vida é
que elas também são destinadas aos leigos. O tempo de preparação
para a vida consagrada depende de cada um, e as etapas para
atingir este objetivo são basicamente as mesmas na maioria das
comunidades.
Primeiro, a pessoa passa
pelo vocacionado, período em que ela conhece melhor a
comunidade, o carisma e as atividades desenvolvidas. Depois vem
o postulantado, que dura cerca de um ano e em seguida, são mais
dois anos de noviciado para então chegar à vida consagrada.
Cada novo membro é acompanhado por um formador pessoal, que tem
a função de orientar o discernimento vocacional da pessoa e
definir se ela está apta à vivência daquilo que a comunidade
propõe. A preparação para o ingresso na Comunidade de Aliança
é semelhante, passando pelas mesmas etapas, porém, sem a
necessidade de morar na comunidade.
Sexualidade
Quando surgiram as primeiras
comunidades de vida, uma das dificuldades que seus membros
encontram foi o estranhamento das pessoas pelo fato de homens e
mulheres viverem todos juntos na mesma casa. “As pessoas não
compreendiam rapazes e moças vivendo juntos com um padre”,
conta padre Jonas. “Houve até quem fosse ao bispo, dizendo
que davam nove meses para ver as moças da comunidade com neném
no colo. Mas, graças a Deus isto não aconteceu”.
Pregando um estilo de vida
conservador e arraigado aos ensinamentos da Igreja Católica, as
comunidades novas estabeleceram o que denominam de convivência
sadia entre homens e mulheres. Hoje, na Canção Nova, as residências
são divididas de acordo com os estados de vida de seus membros,
ou seja, existem casas que são só de seminaristas, outras só
de padres, só de moças, só de rapazes, além de dois prédios
com apartamentos para os casais. Apesar disso, não é possível
que exista essa divisão em todas as unidades da Canção Nova.
“Nas outras frentes de missão que são menores, nós não
temos condições financeiras de alugar muitas casas”, explica
Fernando Ribeiro. “Então, numa única casa moram todos
juntos. Os casais é que têm uma vida mais particular por serem
família”.
Sustento
O sustento das comunidades novas vem das doações e da
renda gerada pelos artigos religiosos produzidos pelos próprios
membros. Em muitos casos, são verdadeiras cidades que vivem da
providência divina, já que nenhum dos membros trabalha fora da
comunidade. “A providência divina é tudo aquilo que Deus nos
manda através de doações que as pessoas nos fazem de
alimento, de roupa, de dinheiro. Nós não nos preocupamos com o
que vamos comer amanhã”, explica Rosilene Pereira,
coordenadora geral das casas missionárias da Comunidade Alfa e
Omega na diocese de Bauru.
TESTEMUNHO
EX-ALUNO DA USC EXPERIMENTA VIDA COMUNITÁRIA
Quem aceitou os desafios da vida comunitária foi Fabiano
de Araújo, 22 anos, que até o ano passado cursava a faculdade
de Música na USC. Há dez meses ele está morando na Comunidade
Recado, na cidade de Tatuí (SP), a 250 km de Bauru.
Fabiano já tinha uma experiência de alguns anos na
Renovação Carismática Católica quando conheceu a comunidade
na qual viria a se engajar. “Recebi um chamado de Deus, não
deu pra esperar nem terminar a faculdade”, conta ele. Apesar
de também serem atuantes na igreja, os pais de Fabiano ficaram
preocupados, já que esta era a segunda faculdade que ele estava
parando, mas acabaram aceitando a decisão do filho.
“A
experiência de abandonar tudo é muito gratificante, apesar de
dolorosa”, diz ele. “O que Deus proporciona pra gente é
muito melhor”. Fabiano conta que deixar a família é o mais
difícil, já que ele não pode visitar os pais enquanto estiver
se preparando para a consagração na comunidade, o que pode
durar três anos. “Mas minha família pode vir pra cá me
visitar. Minha mãe e minha avó já vieram passar uma semana
aqui comigo”.
No primeiro ano do postulantado e morando com outras 10
pessoas, Fabiano atua no ministério de música da comunidade,
que tem como carisma a evangelização através das artes. “Já
estou habituado e no meu coração já está definido que quero
me consagrar na comunidade”, diz ele.
