O contexto atual
Não
bastassem os dois argumentos apresentados acima – à vocação cristã
à comunicação e a uma comunicação dialógica – nunca um
contexto histórico exigiu da Igreja uma postura tão ativa e coerente
em relação aos meios de comunicação como o atual. Não é por
acaso que muitos estudiosos da comunicação definiram este período
(que teve início a partir da última metade do século passado) como
a Era da Informação, em virtude do amplo desenvolvimento e utilização
dos meios de comunicação e uma vasta, rápida e contínua difusão
de mensagens. Um processo que, se por um lado, tem trazido benefícios
inestimáveis à humanidade, por outro, com freqüência, tem gerado
angústia no ser humano por este sentir-se incapaz de dominá-lo
completamente.
E
por essa razão que a Igreja tem se ocupado tanto, nos últimos
tempos, em ampliar seu acesso aos meios de comunicação e incrementar
aquilo que já possui. Muitos foram os documentos e partes de
documentos em que a própria Igreja tem proclamado a questão da
comunicação social como uma de suas prioridades. Tendo sempre como
referencial a experiência dos primeiros cristãos, muitos membros da
comunidade católica têm se ocupado sempre mais em compreender e
usufruir de instrumentos de comunicação de forma coerente com os
princípios do Evangelho. Segundo críticos da comunicação que têm
estudado o tema, essa caminhada registra altos e baixos.
O papel da PasCom
“Nesse
sentido” – afirma o texto Pastoral
da Comunicação – Rumo ao ano 2000, da equipe de reflexão do
Setor de Comunicação Social da CNBB (1995) – “fala-se hoje de
uma ‘nova pastoral’, um
novo jeito de partilhar e viver o Evangelho, a boa nova de Jesus, numa
sociedade cada vez mais pluralista, auto-suficiente, mergulhada num
mar de mensagens muitas vezes contraditórias entre si e em contínuo
processo de transformação”.
E
é justamente este o papel da PasCom. Papel que se mostra muito
exigente, porque produzir comunicação nesses moldes não é uma
tarefa que se improvisa. Pelo contrário: exige muito investimento –
não só na aquisição de recursos – mas, principalmente, na formação
de membros da comunidade (clero e leigos)
para o exercício dessa tarefa. É um empreendimento o qual começa,
quase que obrigatoriamente, pela educação para a comunicação. Em
outras palavras: uma educação à consciência crítica de receptor
das mensagens veiculadas pela mídia.
A
outra perspectiva básica de ação comunicacional da Igreja – a
qual deve ser confiada a coordenação em diferentes níveis (comunitário,
paroquial e diocesano) à PasCom -
é a própria produção de comunicação. Esta deve ocorrer,
invariavelmente, em dois âmbitos.
Dentro e fora da Igreja
O
processo de evangelização – como dito acima, essencialmente, um
ato de comunicação – exige da comunidade o trabalho em dois âmbitos:
dentro e fora da Igreja, isto é, uma comunicação
interna (dentro da própria comunidade) e externa (com os outros
setores da sociedade).
“No
que diz respeito à comunicação interna, entre os membros da própria organização,
a Igreja já tem sua cultura, sua prática organizacional”, escreve
a equipe de reflexão do Setor de Comunicação Social da CNBB (1995).
“A Igreja, como instituição, tem um esquema de valores, de
pressupostos básicos, que agem como elementos de comunicação, mas
também como relações de dominação”. Para superar as deficiências
que as relações de dominação geram no interior da comunidade, a única
receita conhecida (e já apresentada pela Igreja Primitiva) é o diálogo.
“Para
que se renove a comunicação interna da Igreja, é necessário que
esta comunicação dialógica e participativa esteja presente em todas
as pastorais de forma orgânica. Cada pastoral não deve caminhar por
si”. Assim, ao alimentar – com os instrumentos que são próprios
e possíveis – o diálogo entre as pastorais e demais grupos
existentes e atuantes no interior da comunidade, a PasCom deve
contribuir para a unidade da organização.
A
respeito da comunicação externa, a Igreja deve zelar pelo relacionamento
do seus membros “com as pessoas e com os grupos da sociedade,
partilhando com eles informações e mensagens úteis ou necessárias
à construção de um mundo onde a justiça e a paz sejam o reflexo da
mensagem evangélica”.
Segundo
a equipe de reflexão do Setor de Comunicação Social da CNBB
(ibidem), “esta comunicação com o público externo (salientaria,
aqui, a grande imprensa) exige, além do conhecimento da realidade em
que a sociedade está imersa, o domínio da linguagem própria dos
meios de comunicação”.
Formas de atuação
As
formas de atuação da PasCom estão diretamente relacionadas com o
seu papel e os âmbitos em que ela deve atuar. As possibilidades de
atuação são inúmeras e tem relação também com a própria
realidade em que cada equipe da PasCom (seja em nível comunitário,
paroquial ou diocesano) se insere. Com efeito, qualquer planejamento
de ação pastoral (da PasCom ou de outra pastoral) exige um
conhecimento coerente e honesto da realidade em que pretende atuar.
Feito isso, como dito, a criatividade pode suscitar variadas ações
concretas.
Muitas
dessas ações podem e devem estar coligadas com iniciativas já
consolidadas pela Igreja em nível regional ou nacional, como é o
caso da Fundação Dom Helder Câmara, da Arquidiocese de S. Paulo (site
para divulgação de notícias da Igreja); a pesquisa do Regional
Sul-1 da CNBB sobre o uso dos meios de comunicação da Igreja no
Estado de S. Paulo (organizado pelo CERIS, Centro de Estatística
Religiosa e Investigações Sociais) do encontro dos professores de
comunicação, dos seminários e casas de formação (promovido pelo
Setor de Comunicação Social da CNBB); encontros sobre liturgia e
meios de comunicação de massa; prêmio Margarida de Prata (para
obras de cinema e vídeo, também promovido pelo SCS/CNBB); Mutirão
Brasileiro de Comunicação, apenas para citar algumas delas.
A
PasCom deve também manter-se coligada com as várias organizações
católicas que atuam, em nível internacional e nacional, nas mais
diferentes frentes de ação comunicacional. Entre estas, o próprio
Setor de Comunicação Social da CNBB; a Organização Católica
Internacional de Cinema (OCIC); União de Rádio Difusão Católica (UNDA);
União Latino-americana de Imprensa (UCLAP); o Departamento de
Comunicação Social do Conselho Episcopal Latino-americano (DECOS/CELAM);
o Instituto Brasileiro de Comunicação Crista (INBRAC); Rede Católica
de Rádio (RCR); Rede Católica de Imprensa (RCI), e outras.
Em
nível diocesano, a PasCom pode prestar alguns serviços, tais como:
·
manter viva a “memória” da Diocese através do arquivo
(o chamado clipping) com
recortes, relatórios e fotos de eventos;
·
criar grupos, treinar e motivar a PasCom paroquial;
·
gerar e captar notícias relevantes para difusão em
diferentes órgãos de notícia de dentro e de fora da Igreja;
·
coordenar a formação de agentes pastorais e paroquianos
em geral para atuação de forma profissional e especializada na área
de comunicação;
·
promover avaliações das produções católicas da Diocese
em termos de comunicação interna e externa;
·
promover cursos ou outros eventos que visem a educação
para a comunicação de membros da comunidade católica em geral.
As
equipes da PasCom em nível paroquial e comunitário, orientadas pela
PasCom diocesana, devem realizar, basicamente as mesmas atividades,
naturalmente, dentro do seu próprio âmbito de atuação. Além
disso, essas equipes – mais próximas das comunidades que a equipe
diocesana – são responsáveis, justamente, pela ligação mais
estreita entre a PasCom diocesana e as paróquias e suas comunidades.
A idéia, aqui, é simples: a formação de uma rede de comunicadores
em nível diocesano, capaz de fazer circular as notícias dentro e
fora da Diocese de maneira transparente, clara, eficiente e coerente
com o projeto de evangelização da Igreja.
Obstáculos a serem superados
Há
muito o que dizer sobre o que dificulta o trabalho da PasCom. O
objetivo aqui não é limitar-se a lamentações, mas identificar ao
menos os principais motivos que “emperram” uma ação eficiente
dessa Pastoral. Possivelmente, a primeira razão para o insucesso dos
empreendimentos da PasCom é, por incrível que pareça, a falta de
informação e/ou formação ausente e/ou equivocada sobre o assunto.
Faz parte de uma tendência cultural no interior da Igreja, conceber
que suas lideranças (clero e líderes leigos) sempre sabem como
proceder quando o assunto é comunicação. E nem sempre é bem assim.
O
fato é que o problema se trata, essencialmente, de uma questão política.
E delicada. Infelizmente, a Igreja amarga a sensação de fracasso,
ainda que parcial, quando o tema é comunicação, por causa de um
certo autoritarismo presente nas relações dos seus membros entre si
e destes com outras segmentos da sociedade. Quem não possui formação
nem experiência profissional na área está em evidente desvantagem
quando o assunto é compreender o que é e como fazer comunicação
dentro da Igreja e desta para fora dela. Mesmo se produza algum ato
comunicacional, corre o risco de não atingir plenamente seu objetivo
por ser incapaz de ver onde e como dever melhorar, o que deve mudar e
fazer e o que não deve fazer.
É
fato, por outro lado, que os líderes habituados a dialogarem nas suas
relações pessoais – o que significa dizer o se que pensa, com
transparência e na caridade evangélica, mas também saber ouvir,
saber perder etc -, certamente, não terão dificuldades em aprender
aquela comunicação dialógica dos primeiros tempos do Cristianismo.
De outro modo, toda iniciativa da PasCom na comunidade está
comprometida. É curioso observar aqui, que a Igreja, como qualquer
outra organização, corre o risco de cometer os mesmos sacrilégios
que a grande mídia (tão criticada pelos cristãos) comete
diariamente: esta não dialoga com o seu público, mas, via sedução,
lhe impõe (ou vende, como preferem alguns) idéias, valores e
produtos cuja relação com o Evangelho é inexistente. Em que nós,
cristãos, somos melhores, ao impormos os nossos pontos de vista,
quando deveríamos propô-los? A propósito, já devíamos ter
aprendido a esse respeito com os nossos próprios erros do passado...
Outro
“pecado” comum na Igreja quando o assunto é comunicação é
utilizar seus instrumentos de maneira, digamos, “estéril”.
Produzimos o jornal da paróquia, o boletim diocesano, para quem? Para
nós mesmos? Para as pessoas? Se a resposta for a segunda alternativa,
pergunto: estas pessoas se sentem mais e melhor informadas sobre o que
acontece na comunidade por causa desse trabalho? Esse trabalho
estimula a adesão da pessoas à vida em comunidade? Ou não é mais
que um objeto da vaidade de alguém ou de um grupo de pessoas cuja
utilidade não vai além de se tornar material de arquivo? Seria
interessante que os membros ativos da comunidade, sobre este ou sobre
qualquer outro tipo de empenho, aprendessem a ouvir as pessoas para
saber como melhor avaliar seu próprio desempenho. Mas, para isso, é
preciso coragem. Porque, justificável ou não, quem quer saber dos
outros sobre o que faz, corre o risco de ouvir o que não gostaria. E
entre tantas belas tradições que a Igreja preserva ao longo dos séculos,
a meu ver, esta ainda não é muito prestigiada.
Relacionados
aos argumentos acima, é útil reproduzir aqui o comentário da equipe
de reflexão o Setor de Comunicação Social da CNNB (1995) a respeito
da necessidade (e dificuldade, o “outro lado da moeda”) de se
investir em condições técnicas adequadas para a ação da PasCom:
“Meios técnicos
Os meios técnicos ampliam o alcance da comunicação
mas, ao mesmo tempo, condicionam as formas de comunicação, ou seja,
cada meio de comunicação exige um padrão de produção: um é o
estilo usado no rádio, outro na televisão, outro na imprensa. A
linguagem escrita tem suas exigências; a falada tem outras; e a
visual, outras ainda.
Um dos grandes problemas da comunicação da Igreja
é a tentação de usar, nos meios modernos, a mesma linguagem que se
usa há muitos anos nos sermões de domingo.
Além de preocupar-se com recursos técnicos
(boletins, jornais, revistas, emissoras de rádio ou de televisão, vídeos)
a Pastoral da Comunicação deve prever o uso de forma adequada aos
padrões de cada canal.
Ambiente
adequado
A Pastoral da Comunicação deve prever, também,
espaços físicos adequados. Em algumas paróquias, por exemplo,
existe uma ‘sala de comunicação’, onde são expostos jornais,
revistas, discos, vídeos e onde os paroquianos podem tomar
conhecimento dos artigos publicados mensalmente pela imprensa católica,
reunir-se para planejar e avaliar sua comunicação ou, ainda,
discutir sobre os programas das emissoras de rádio ou de TV que vêm
causando maior impacto junto aos membros da comunidade.
Recursos
econômicos
A comunicação necessita de investimentos.
A Igreja sempre se preocupou com a melhor forma de
comunicar o Evangelho, destinando imensos recursos à construção de
catedrais, universidades e grandes colégios, considerados, sempre,
como meios excelentes e permanentes de comunicação do Evangelho.
A Igreja investiu igualmente em emissoras de rádio
(170
emissoras no Brasil prestam hoje serviço a dioceses e congregações
religiosas), editoras (das 10 maiores editoras do país, quatro
pertencem a congregações religiosas), jornais, revistas e em
produtoras de vídeo e de discos.
Conhecendo tal predisposição da Igreja em investir
na comunicação, os planejadores da Pastoral da Comunicação, em nível
diocesano e comunitário, ou em nível de movimento ou de pastoral
específica, devem insistir junto às autoridades competentes no
sentido de darem sustentação econômica aos programas e projetos na
área de comunicação”.
Na Diocese de Bauru
A
equipe diocesana da PasCom da Diocese de Bauru apenas recentemente foi
reorganizada. Ela está dando os primeiros passos no sentido de se
organizar e, diante de tantas possibilidades de atuação, descobrir,
o que e como fazer, sem “tropeçar nas próprias pernas”. O
trabalho é ainda “tímido”, “de bastidor”, porque, não
obstante os esforços realizados no passado, a Pastoral da Comunicação
não se desenvolveu a contento (em parte, por conta dos obstáculos
acima relacionados).
Mesmo
se não totalmente constituída (falta, por exemplo, um assessor), a
equipe diocesana da PasCom da Diocese de Bauru já deu alguns passos:
fez um primeiro esboço de projeto de trabalho; realizou um jantar
para arrecadar fundos para suas atividades (abriu, inclusive, uma
conta bancária) e, a partir da constatação das principais deficiências
nessa área de atuação, propôs a si mesma formar-se e informar-se
melhor sobre o que deve ser a PasCom, qual a realidade em que se
encontra e por quais ações
propostas em seu projeto inicial devem ser, de fato, assumidas. Só
então, ela terá um planejamento de trabalho coerente com a realidade
da Diocese.
Para
fazer parte dessa pastoral entre em contato com:
Lucilene
Fernandes – lucilene_fernandes@ig.com.br
Luís
Henrique Marques – lhm.blv@terra.com.br
Aline
Maria Mendes – alinemmendes@bol.com.br
