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O que é Pastoral da Comunicação?[1]

Neste artigo, é apresentada não só uma noção básica do que é (ou deveria ser)  a PasCom, bem como o que de mais importante se relaciona com sua forma e âmbito de atuação e os obstáculos a serem superados nessa área.

Luís Henrique Marques

pela PasCom/Diocese de Bauru

Definir o que é Pastoral da Comunicação, a PasCom, é recorrer às próprias origens do Cristianismo. É o documento de Puebla que, talvez, mais direta e claramente sintetizou a relação entre o Evangelho e a Comunicação. “Evangelizar é comunicar”, afirma o documento. E não é para menos. A própria expressão “evangelho” (de origem grega cujo significado é “boa nova, boa notícia”) já revela a vocação cristã ao anúncio da mensagem do Cristo. “Ide pelo mundo e preg ai o Evangelho a todas as gentes”, disse Jesus conforme registrou o evangelista Mateus no capítulo 16, versículo 15 de seu evangelho. De fato, o Cristianismo, na sua gênese, já possui a vocação à propagação:

“O acontecimento de Cristo, envolvendo a vida do homem, gerou um fluxo humano ininterrupto: o povo cristão. Pertencer ao povo de Deus (que no judaísmo tinha fundamento étnico, ou seja, era-se hebreu por nascimento) caracteriza-se de modo novo como consciência de ser membro, através do batismo, do Corpo místico de Cristo, Seu prolongamento na história. É a certeza desta Presença que conduz os primeiros doze pelas estradas de todo o Império (romano), a levar o inconcebível anúncio: ‘O Verbo se fez carne e veio habitar entre nós’ (Jo, 1-14).

É elemento fundamental da consciência dos primeiros cristãos considerarem-se depositários de uma resposta global e definitiva à espera de salvação de cada homem: ‘Porque Cristo apareceu como redentor da humanidade inteira, por isso também o Seu corpo, sua essência, tende a incluir a humanidade inteira’ (K. Adam). Representam bem esta consciência as viagens apostólicas da primeira evangelização (...) Assiste-se, assim, à formação rapidíssima de comunidades cristãs em todo o mundo então conhecido: oikoumene (terra habitada)”. (Centro Cultural XII de Outubro, 1998 In: Marques, 1999)

É também vocação dos cristãos  – entre os quais estão os membros da Igreja Católica – resgatar toda uma vivência dos seus primeiros tempos (a chamada Igreja Primitiva), considerado comumente como período em que se constituiu o modelo ideal de comunidade cristã, na qual, inclusive, toda prática comunicacional baseia-se na capacidade de um diálogo “horizontal” entre os seus membros  e não uma simples relação hierarquizada, em que alguns determinam e outros obedecem. Segundo o jornalista e professor José Marques de Melo (1986), no Cristianismo primitivo, “o modo de comunicação dominante se articula a partir de fluxos horizontais que traduzem a participação dos cristãos na interpretação do evangelho e no seu anúncio”.

 

O contexto atual

 Não bastassem os dois argumentos apresentados acima – à vocação cristã à comunicação e a uma comunicação dialógica – nunca um contexto histórico exigiu da Igreja uma postura tão ativa e coerente em relação aos meios de comunicação como o atual. Não é por acaso que muitos estudiosos da comunicação definiram este período (que teve início a partir da última metade do século passado) como a Era da Informação, em virtude do amplo desenvolvimento e utilização dos meios de comunicação e uma vasta, rápida e contínua difusão de mensagens. Um processo que, se por um lado, tem trazido benefícios inestimáveis à humanidade, por outro, com freqüência, tem gerado angústia no ser humano por este sentir-se incapaz de dominá-lo completamente.

E por essa razão que a Igreja tem se ocupado tanto, nos últimos tempos, em ampliar seu acesso aos meios de comunicação e incrementar aquilo que já possui. Muitos foram os documentos e partes de documentos em que a própria Igreja tem proclamado a questão da comunicação social como uma de suas prioridades. Tendo sempre como referencial a experiência dos primeiros cristãos, muitos membros da comunidade católica têm se ocupado sempre mais em compreender e usufruir de instrumentos de comunicação de forma coerente com os princípios do Evangelho. Segundo críticos da comunicação que têm estudado o tema, essa caminhada registra altos e baixos.

 O papel da PasCom

 “Nesse sentido” – afirma o texto Pastoral da Comunicação – Rumo ao ano 2000, da equipe de reflexão do Setor de Comunicação Social da CNBB (1995) – “fala-se hoje de uma ‘nova pastoral’, um novo jeito de partilhar e viver o Evangelho, a boa nova de Jesus, numa sociedade cada vez mais pluralista, auto-suficiente, mergulhada num mar de mensagens muitas vezes contraditórias entre si e em contínuo processo de transformação”.

E é justamente este o papel da PasCom. Papel que se mostra muito exigente, porque produzir comunicação nesses moldes não é uma tarefa que se improvisa. Pelo contrário: exige muito investimento – não só na aquisição de recursos – mas, principalmente, na formação de membros da comunidade (clero e leigos[2]) para o exercício dessa tarefa. É um empreendimento o qual começa, quase que obrigatoriamente, pela educação para a comunicação. Em outras palavras: uma educação à consciência crítica de receptor das mensagens veiculadas pela mídia.

A outra perspectiva básica de ação comunicacional da Igreja – a qual deve ser confiada a coordenação em diferentes níveis (comunitário, paroquial e diocesano) à PasCom -  é a própria produção de comunicação. Esta deve ocorrer, invariavelmente, em dois âmbitos.

 

Dentro e fora da Igreja

O processo de evangelização – como dito acima, essencialmente, um ato de comunicação – exige da comunidade o trabalho em dois âmbitos: dentro e fora da Igreja, isto é, uma comunicação interna (dentro da própria comunidade) e externa (com os outros setores da sociedade).

“No que diz respeito à comunicação interna, entre os membros da própria organização, a Igreja já tem sua cultura, sua prática organizacional”, escreve a equipe de reflexão do Setor de Comunicação Social da CNBB (1995). “A Igreja, como instituição, tem um esquema de valores, de pressupostos básicos, que agem como elementos de comunicação, mas também como relações de dominação”. Para superar as deficiências que as relações de dominação geram no interior da comunidade, a única receita conhecida (e já apresentada pela Igreja Primitiva) é o diálogo.

“Para que se renove a comunicação interna da Igreja, é necessário que esta comunicação dialógica e participativa esteja presente em todas as pastorais de forma orgânica. Cada pastoral não deve caminhar por si”. Assim, ao alimentar – com os instrumentos que são próprios e possíveis – o diálogo entre as pastorais e demais grupos existentes e atuantes no interior da comunidade, a PasCom deve contribuir para a unidade da organização.

A respeito da comunicação externa, a Igreja deve zelar pelo relacionamento do seus membros “com as pessoas e com os grupos da sociedade, partilhando com eles informações e mensagens úteis ou necessárias à construção de um mundo onde a justiça e a paz sejam o reflexo da mensagem evangélica”.

Segundo a equipe de reflexão do Setor de Comunicação Social da CNBB (ibidem), “esta comunicação com o público externo (salientaria, aqui, a grande imprensa) exige, além do conhecimento da realidade em que a sociedade está imersa, o domínio da linguagem própria dos meios de comunicação”.

  

Formas de atuação

As formas de atuação da PasCom estão diretamente relacionadas com o seu papel e os âmbitos em que ela deve atuar. As possibilidades de atuação são inúmeras e tem relação também com a própria realidade em que cada equipe da PasCom (seja em nível comunitário, paroquial ou diocesano) se insere. Com efeito, qualquer planejamento de ação pastoral (da PasCom ou de outra pastoral) exige um conhecimento coerente e honesto da realidade em que pretende atuar. Feito isso, como dito, a criatividade pode suscitar variadas ações concretas.

Muitas dessas ações podem e devem estar coligadas com iniciativas já consolidadas pela Igreja em nível regional ou nacional, como é o caso da Fundação Dom Helder Câmara, da Arquidiocese de S. Paulo (site para divulgação de notícias da Igreja); a pesquisa do Regional Sul-1 da CNBB sobre o uso dos meios de comunicação da Igreja no Estado de S. Paulo (organizado pelo CERIS, Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais) do encontro dos professores de comunicação, dos seminários e casas de formação (promovido pelo Setor de Comunicação Social da CNBB); encontros sobre liturgia e meios de comunicação de massa; prêmio Margarida de Prata (para obras de cinema e vídeo, também promovido pelo SCS/CNBB); Mutirão Brasileiro de Comunicação, apenas para citar algumas delas.

A PasCom deve também manter-se coligada com as várias organizações católicas que atuam, em nível internacional e nacional, nas mais diferentes frentes de ação comunicacional. Entre estas, o próprio Setor de Comunicação Social da CNBB; a Organização Católica Internacional de Cinema (OCIC); União de Rádio Difusão Católica (UNDA); União Latino-americana de Imprensa (UCLAP); o Departamento de Comunicação Social do Conselho Episcopal Latino-americano (DECOS/CELAM); o Instituto Brasileiro de Comunicação Crista (INBRAC); Rede Católica de Rádio (RCR); Rede Católica de Imprensa (RCI), e outras.

Em nível diocesano, a PasCom pode prestar alguns serviços, tais como:

·          manter viva a “memória” da Diocese através do arquivo (o chamado clipping) com recortes, relatórios e fotos de eventos;

·          criar grupos, treinar e motivar a PasCom paroquial;

·          gerar e captar notícias relevantes para difusão em diferentes órgãos de notícia de dentro e de fora da Igreja;

·          coordenar a formação de agentes pastorais e paroquianos em geral para atuação de forma profissional e especializada na área de comunicação;

·          promover avaliações das produções católicas da Diocese em termos de comunicação interna e externa;

·          promover cursos ou outros eventos que visem a educação para a comunicação de membros da comunidade católica em geral.

As equipes da PasCom em nível paroquial e comunitário, orientadas pela PasCom diocesana, devem realizar, basicamente as mesmas atividades, naturalmente, dentro do seu próprio âmbito de atuação. Além disso, essas equipes – mais próximas das comunidades que a equipe diocesana – são responsáveis, justamente, pela ligação mais estreita entre a PasCom diocesana e as paróquias e suas comunidades. A idéia, aqui, é simples: a formação de uma rede de comunicadores em nível diocesano, capaz de fazer circular as notícias dentro e fora da Diocese de maneira transparente, clara, eficiente e coerente com o projeto de evangelização da Igreja.

 

Obstáculos a serem superados

Há muito o que dizer sobre o que dificulta o trabalho da PasCom. O objetivo aqui não é limitar-se a lamentações, mas identificar ao menos os principais motivos que “emperram” uma ação eficiente dessa Pastoral. Possivelmente, a primeira razão para o insucesso dos empreendimentos da PasCom é, por incrível que pareça, a falta de informação e/ou formação ausente e/ou equivocada sobre o assunto. Faz parte de uma tendência cultural no interior da Igreja, conceber que suas lideranças (clero e líderes leigos) sempre sabem como proceder quando o assunto é comunicação. E nem sempre é bem assim.

O fato é que o problema se trata, essencialmente, de uma questão política. E delicada. Infelizmente, a Igreja amarga a sensação de fracasso, ainda que parcial, quando o tema é comunicação, por causa de um certo autoritarismo presente nas relações dos seus membros entre si e destes com outras segmentos da sociedade. Quem não possui formação nem experiência profissional na área está em evidente desvantagem quando o assunto é compreender o que é e como fazer comunicação dentro da Igreja e desta para fora dela. Mesmo se produza algum ato comunicacional, corre o risco de não atingir plenamente seu objetivo por ser incapaz de ver onde e como dever melhorar, o que deve mudar e fazer e o que não deve fazer.

É fato, por outro lado, que os líderes habituados a dialogarem nas suas relações pessoais – o que significa dizer o se que pensa, com transparência e na caridade evangélica, mas também saber ouvir, saber perder etc -, certamente, não terão dificuldades em aprender aquela comunicação dialógica dos primeiros tempos do Cristianismo. De outro modo, toda iniciativa da PasCom na comunidade está comprometida. É curioso observar aqui, que a Igreja, como qualquer outra organização, corre o risco de cometer os mesmos sacrilégios que a grande mídia (tão criticada pelos cristãos) comete diariamente: esta não dialoga com o seu público, mas, via sedução, lhe impõe (ou vende, como preferem alguns) idéias, valores e produtos cuja relação com o Evangelho é inexistente. Em que nós, cristãos, somos melhores, ao impormos os nossos pontos de vista, quando deveríamos propô-los? A propósito, já devíamos ter aprendido a esse respeito com os nossos próprios erros do passado...

Outro “pecado” comum na Igreja quando o assunto é comunicação é utilizar seus instrumentos de maneira, digamos, “estéril”. Produzimos o jornal da paróquia, o boletim diocesano, para quem? Para nós mesmos? Para as pessoas? Se a resposta for a segunda alternativa, pergunto: estas pessoas se sentem mais e melhor informadas sobre o que acontece na comunidade por causa desse trabalho? Esse trabalho estimula a adesão da pessoas à vida em comunidade? Ou não é mais que um objeto da vaidade de alguém ou de um grupo de pessoas cuja utilidade não vai além de se tornar material de arquivo? Seria interessante que os membros ativos da comunidade, sobre este ou sobre qualquer outro tipo de empenho, aprendessem a ouvir as pessoas para saber como melhor avaliar seu próprio desempenho. Mas, para isso, é preciso coragem. Porque, justificável ou não, quem quer saber dos outros sobre o que faz, corre o risco de ouvir o que não gostaria. E entre tantas belas tradições que a Igreja preserva ao longo dos séculos, a meu ver, esta ainda não é muito prestigiada.

Relacionados aos argumentos acima, é útil reproduzir aqui o comentário da equipe de reflexão o Setor de Comunicação Social da CNNB (1995) a respeito da necessidade (e dificuldade, o “outro lado da moeda”) de se investir em condições técnicas adequadas para a ação da PasCom:

Meios técnicos

Os meios técnicos ampliam o alcance da comunicação mas, ao mesmo tempo, condicionam as formas de comunicação, ou seja, cada meio de comunicação exige um padrão de produção: um é o estilo usado no rádio, outro na televisão, outro na imprensa. A linguagem escrita tem suas exigências; a falada tem outras; e a visual, outras ainda.

Um dos grandes problemas da comunicação da Igreja é a tentação de usar, nos meios modernos, a mesma linguagem que se usa há muitos anos nos sermões de domingo.

Além de preocupar-se com recursos técnicos (boletins, jornais, revistas, emissoras de rádio ou de televisão, vídeos) a Pastoral da Comunicação deve prever o uso de forma adequada aos padrões de cada canal.

 

Ambiente adequado

A Pastoral da Comunicação deve prever, também, espaços físicos adequados. Em algumas paróquias, por exemplo, existe uma ‘sala de comunicação’, onde são expostos jornais, revistas, discos, vídeos e onde os paroquianos podem tomar conhecimento dos artigos publicados mensalmente pela imprensa católica, reunir-se para planejar e avaliar sua comunicação ou, ainda, discutir sobre os programas das emissoras de rádio ou de TV que vêm causando maior impacto junto aos membros da comunidade.

 

Recursos econômicos

A comunicação necessita de investimentos.

A Igreja sempre se preocupou com a melhor forma de comunicar o Evangelho, destinando imensos recursos à construção de catedrais, universidades e grandes colégios, considerados, sempre, como meios excelentes e permanentes de comunicação do Evangelho.

A Igreja investiu igualmente em emissoras de rádio (170[3] emissoras no Brasil prestam hoje serviço a dioceses e congregações religiosas), editoras (das 10 maiores editoras do país, quatro pertencem a congregações religiosas), jornais, revistas e em produtoras de vídeo e de discos.

Conhecendo tal predisposição da Igreja em investir na comunicação, os planejadores da Pastoral da Comunicação, em nível diocesano e comunitário, ou em nível de movimento ou de pastoral específica, devem insistir junto às autoridades competentes no sentido de darem sustentação econômica aos programas e projetos na área de comunicação”.

 

Na Diocese de Bauru

A equipe diocesana da PasCom da Diocese de Bauru apenas recentemente foi reorganizada. Ela está dando os primeiros passos no sentido de se organizar e, diante de tantas possibilidades de atuação, descobrir, o que e como fazer, sem “tropeçar nas próprias pernas”. O trabalho é ainda “tímido”, “de bastidor”, porque, não obstante os esforços realizados no passado, a Pastoral da Comunicação não se desenvolveu a contento (em parte, por conta dos obstáculos acima relacionados).

Mesmo se não totalmente constituída (falta, por exemplo, um assessor), a equipe diocesana da PasCom da Diocese de Bauru já deu alguns passos: fez um primeiro esboço de projeto de trabalho; realizou um jantar para arrecadar fundos para suas atividades (abriu, inclusive, uma conta bancária) e, a partir da constatação das principais deficiências nessa área de atuação, propôs a si mesma formar-se e informar-se melhor sobre o que deve ser a PasCom, qual a realidade em que se encontra  e por quais ações propostas em seu projeto inicial devem ser, de fato, assumidas. Só então, ela terá um planejamento de trabalho coerente com a realidade da Diocese.

Para fazer parte dessa pastoral entre em contato com:

 

Lucilene Fernandes – lucilene_fernandes@ig.com.br

Luís Henrique Marques – lhm.blv@terra.com.br

Aline Maria Mendes – alinemmendes@bol.com.br


[1] Artigo publicado no Boletim Diocesano, da Diocese de Bauru (SP), Ano XXX, n° 428, fevereiro de 2001, p. 27 a 33.

[2] Para alguns especialistas ligados à Igreja e quem atuam em projetos de “Educação para a comunicação”, esta deve ser realizada em três níveis: com os agentes pastorais, com os comunicadores e com os usuários em geral. Em relação aos agentes pastorais, “é necessária uma formação específica em comunicação (como comunicar); para comunicadores, sacerdotes e religiosas, uma formação ética, cristã (o que comunicar); e, para o grande público dos usuários, uma formação crítica diante daquilo que nos é oferecido pelos meios (como reelaborar a mensagem recebida, reagindo frente a ela e, ainda, como influenciar as políticas de comunicação do país e da própria Igreja)”. (Equipe de reflexão do Setor de Comunicação Social da CNBB, 1995)

[3] Segundo dados mais atuais, esse número já é superior a 180 emissoras (Lobato, 10ago1997)