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Leia entrevista com Dom Luiz Antônio publicada pelo JC

 

Vida em plenitude

 

No Dia Mundial de Oração pela Paz, o bispo Dom Luiz Antônio Guedes reflete sobre a importância da fé e vivência cristã na comunidade

 

“Desejo um ano muito feliz, de grandes realizações para nossa cidade e região e também para nosso País. Que possamos, de fato, encontrar caminhos para a solução dos problemas que afligem a vida do povo e dar condições para que as pessoas sejam mais felizes.” Traduzindo fé e esperança em palavras, o bispo dom Luiz Antônio Guedes dá boas-vindas ao primeiro dia de 2006, data de oração mundial pela paz.

Otimista em relação ao futuro da humanidade, ele recebeu a equipe do Jornal da Cidade na última terça-feira, na Diocese de Bauru. Durante a entrevista, fez uma reflexão sobre o atual contexto político e social, o papel da Igreja Católica e a importância da vivência cristã na comunidade.

Nascido em 25 de novembro de 1945, em Mogi-Mirim, São Paulo, Dom Luiz engajou-se no movimento católico desde a infância. Contando com o apoio da família, entrou para o seminário na adolescência. Em 2001, foi nomeado como o quarto bispo da Diocese de Bauru. Em quatro anos de trabalho, o bispo coordena - com a ajuda de padres e leigos - diversos projetos. Entre eles, atividades que visam intensificar a participação dos fiéis na Igreja e programas de promoção social, como a Pastoral da Criança e Pastoral Carcerária, entre outros. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Bauru possui um número maior de padres em relação a outras Dioceses. Isso é um privilégio?

Bispo Dom Luiz Antônio Guedes
- Comparando o número de padres presentes na Diocese de Bauru com outras dioceses, percebemos que a cidade é privilegiada em algum sentido. Ao todo, a Diocese de Bauru possui 37 padres, mais 22 ligados a congregações religiosas e outros sete que residem em Bauru e são ligados ao Seminário Franciscano de Agudos.

JC - Como despertar a vocação sacerdotal?

Dom Luiz
- Tenho cada vez mais convicção de que a melhor propaganda vocacional é a intensificação da vida cristã nas comunidades e paróquias. Normalmente, quando uma paróquia está bem consciente da sua vocação e vive sua missão de evangelizar, terá como frutos o engajamento de mais pessoas que querem se envolver de forma total com Cristo. Trabalhei na Pastoral Vocacional e, quando algum candidato se apresentava para ingressar no seminário, uma das perguntas que eu fazia era exatamente esta: como era sua vida cristã e como ele estava engajado na sua comunidade, paróquia ou movimento da Igreja. A vocação sacerdotal é uma conseqüência de seguir Jesus Cristo. Ela não pode ser um trabalho de marketing ou propaganda, tem que ser fruto de aprofundamento de vivência cristã.

JC - Quando o senhor descobriu sua vocação?

Dom Luiz
- Ela foi descoberta aos poucos. Fiz catequese na paróquia onde eu freqüentava, em Mogi-Mirim. Depois da Primeira Eucaristia, continuei participando da catequese na perseverança. Nesse período, minha catequista, que era uma religiosa, me convidou para auxiliar o padre nas missas. Para aprender as atividades fui até a casa onde ela morava e lá encontrei uma outra religiosa encarregada da Pastoral Vocacional na minha cidade. Quando me viu, ela perguntou se eu não queria ser padre. E, na hora, eu disse que aceitava, mas não havia pensado nisso antes. Entrei para o seminário na época em que iria iniciar o ginásio. Fiquei lá durante dois anos e depois resolvi sair. Embora não tivesse desistido totalmente de ser padre, queria voltar para minha casa e ficar com minha família. Continuei estudando na minha cidade, trabalhei com meu pai e também como advogado durante um período. E aos 19 anos eu regressei ao seminário.

JC - Por quê?

Dom Luiz
- Sempre tive uma ligação muito grande com a vida da minha comunidade. Minha casa, aliás, ficava em frente à praça da igreja e isso facilitava um pouco. Além disso, sempre tive amizade com as pessoas que freqüentavam as pastorais e uma identificação com a Igreja Católica. Não era uma questão de ser moda e minha família não era tão participante da Igreja na época. Foi um impulso que eu sentia. Me identificava com essa forma de vida, que me levou para o segmento cristão.

JC - Durante esse período o senhor teve apoio da família?

Dom Luiz
- Sim. Minha família é tradicional e muito unida. Somos sete irmãos. Eu sou o mais velho e nós somos muito entrosados. Não houve nenhum empenho da minha família para me “empurrar” para ser padre, mas ao mesmo tempo ela não se opôs para que eu fosse. A filosofia do meu pai sempre foi a que nós devemos decidir o que queremos ser.

JC – O senhor costuma encontrar seus irmãos freqüentemente? Como administra a saudade da família?

Dom Luiz
– Tenho muito contato com minha família. É interessante porque, quando saímos para entrar no seminário, temos a sensação de que estamos rompendo com nossos familiares para seguir Jesus Cristo. E, de fato, eu fui, me engajei e me tornei padre. Trabalhei a maior parte do tempo em Campinas e minha família mora próximo à cidade e isso permitia que nos encontrássemos sempre. Há quatro anos, estou em Bauru e, uma vez por mês, vou para Mogi-Mirim e fico hospedado na casa da minha irmã. Além disso, mantenho contato por telefone. Tenho uma ligação muito forte com meus irmãos, cunhados, sobrinhos e amigos.

JC - Quais são os projetos da Diocese de Bauru para 2006? Entre eles, quais o senhor destaca como mais importantes?

Dom Luiz
- Nós temos o 7.º Plano Pastoral, que vai vigorar até 2007. Nosso objetivo é fazer com que os projetos que nós elaboramos passem para a prática. E isso não é tão simples porque entre propor e colocar em prática é necessário um esforço muito grande, que nem sempre é percebido. E o que buscamos é intensificar a realização e concretização dos projetos propostos no Plano da Pastoral. Temos quatro programas. O primeiro se chama “Descentralização”, que busca intensificar a participação dos fiéis, porque se centralizarmos a ação pastoral, reduzimos essa participação a um número pequeno de pessoas. O segundo programa, denominado “Formação Inicial e Permanente”, conta com três projetos: o anúncio da pessoa e da mensagem de Jesus, a catequese nos vários níveis e a formação teológica para as pessoas que são agentes pastorais ou para quem deseja aprofundar seus conhecimentos. O terceiro programa é o “Igreja e Juventude”. Na Diocese de Bauru, temos vários segmentos da juventude católica, entre eles a Pastoral da Juventude, os Jovens Vicentinos, os jovens ligados à Renovação Carismática, os jovens das Equipes de Nossa Senhora e outros grupos de jovens nas paróquias. Esse projeto visa relacionar e articular todos esses segmentos. O quarto programa é o de promoção social. Um dos que se destaca é o da Pastoral da Criança, que visa promover as famílias e dar condições para que elas possam ter uma sobrevivência mais tranqüila. Há ainda a Pastoral Carcerária e começamos agora uma atuação na Febem; uma das ações recentes - que contou com a colaboração de católicos da cidade - foi a doação de bíblias para os internos.

JC - Além dos segmentos ligados à juventude católica, como o senhor avalia a participação dos jovens na Igreja?

Dom Luiz
- Nós temos um número razoável de jovens que participam das celebrações e das missas. Notamos também a presença deles em encontros, mas o que é um pouco difícil é conseguir agrupar os jovens para um trabalho permanente. A sociedade atual não estabelece compromissos a longo prazo. Ela olha mais o imediato e parece que há um certo receio dos jovens e também dos adultos de assumir compromissos para uma vida inteira.

JC - O que visa a Campanha da Fraternidade 2006, cujo tema aborda os portadores de necessidades especiais?

Dom Luiz
- A Campanha da Fraternidade surgiu em 1964. Num primeiro momento, ela teve como finalidade intensificar a participação dos fiéis católicos na própria Igreja. Depois de uma determinada fase, a campanha se voltou mais para fora da Igreja, enfocando como a Igreja poderia contribuir para a melhoria da vida humana e de que forma nós podemos nos converter para sermos mais fiéis a Jesus Cristo. A partir daí, entraram temas sociais. A Campanha da Fraternidade é um tempo forte de evangelização e, a cada ano, são abordados aspectos diferentes. Neste ano, vamos abordar a fraternidade e as pessoas com necessidades especiais, visando promover os direitos dos indivíduos, seja na própria Igreja e também na sociedade.

JC - Qual é o papel social da Igreja?

Dom Luiz
- Jesus Cristo disse: “Eu vim para que todos tenham vida em plenitude”. Nós pregamos o Evangelho e Deus não necessita de nada que é nosso. Quem precisa de nós são nossos irmãos. Temos que nos empenhar para que nossos irmãos sejam respeitados, valorizados em sua dignidade e possam atingir uma vida feliz realmente.

JC - Em relação à política, qual é a posição da Igreja Católica?

Dom Luiz
- Temos uma orientação de que ministros ordenados, como bispos e padres, não podem exercer um cargo político eletivo. A Igreja pensa dessa forma porque a política é feita de partidos, cujo próprio nome vem de “parte” e de alguma forma ocorre uma divisão. O padre é um pastor que deve fazer a unidade da comunidade. Quem pode e deve participar da política são os leigos. Na Igreja, leigo é uma palavra muito rica porque ela se deriva de uma palavra grega: laikós, que significa “aquele que pertence ao povo”. Leigo é um membro do povo de Deus. É um cidadão do Reino e ele deve ser a presença cristã no meio da sociedade.

JC - Pesquisas e utilização de células-tronco para salvar vidas, congelamento de embriões, nanotecnologia, entre outros avanços científicos, estão cada vez mais em evidência. Qual é a posição da Igreja Católica em relação à interferência da ciência na vida do ser humano?

Dom Luiz
- A Igreja tem como valor supremo a vida. O próprio Deus é vida e tudo aquilo que realmente dignificar, defender e valorizar a vida está em sintonia com o a proposta da Igreja e do Evangelho. A Igreja se opõe àquilo que de alguma forma diminui, destrói, prejudica ou humilha a vida.

JC - Como o senhor analisa a condução da Igreja Católica pelo Papa Bento XVI?

Dom Luiz
- O papa ainda está no início do seu trabalho. Em janeiro, ele vai promulgar a 1.ª Encíclica, que provavelmente será nomeada “Deus é Amor”. O papa tem sido um homem não tão presente visivelmente como João Paulo II, mas ele tem demonstrado uma delicadeza muito grande. Tenho uma impressão muito positiva dele. Em 2003, eu e todos os bispos do Estado de São Paulo fomos a Roma fazer uma visita ao papa (na época João Paulo II) e foi interessante porque visitamos a Congregação para a Doutrina da Fé, cujo prefeito era o cardeal Ratzinger. Ele foi o único cardeal prefeito que cumprimentou pessoalmente todos os que estavam lá. O papa Bento XVI é um homem seguro e firme. É muito preparado, tem uma cultura vasta e acredito que ele tem duas preocupações: aprofundar a identidade da Igreja, porque senão ela se dissolve, e ao mesmo tempo tem demonstrado uma capacidade grande de diálogo com outras Igrejas e religiões.

JC - Comentou-se muito que o novo papa adotaria uma linha mais conservadora devido às restrições feitas pela Teologia da Libertação. Como o senhor analisa isso?

Dom Luiz
- Acho que foi mais um estigma porque alguns acontecimentos ocorreram durante o governo do Papa João Paulo II e o cardeal Ratzinger era o prefeito para Doutrina da Fé. E, logicamente, ele era o guardião encarregado de cuidar da fé da Igreja. Era uma posição que ele estava ocupando que necessitava dessa postura. Agora, ele é o pastor, aquele que faz a comunhão entre todos.

JC - Hoje, 1º de janeiro de 2006, é o Dia Mundial de Oração pela Paz. Apesar do contexto mundial, é possível perceber sinais promissores no caminho de construção da paz?

Dom Luiz
- Nunca podemos perder a esperança. Na realidade, sempre houve conflitos, desde os primórdios da humanidade. Hoje, de alguma forma, os conflitos se acirraram mais, porém conhecemos mais do que sabíamos; o que acontece do outro lado do mundo, por exemplo, é transmitido instantaneamente em nosso país. Como cristãos, temos a convicção de que o bem vencerá o mal. A vida vencerá a morte. Temos que fazer todo o empenho para que, de fato, as pessoas não percam a esperança; se a perdemos, talvez venham o desespero e a violência. A esperança é uma conseqüência da fé e dinamiza a busca por soluções. E mesmo que, por alguma razão, a pessoa não tenha fé em Jesus Cristo, mas acredite em valores permanentes e profundos, a partir daí nasce a esperança. Quando a pessoa crê, tem forças para lutar.

 

Cristiane Goto

Entrevista publicada pelo Jornal da Cidade no dia 1º de janeiro de 2006.