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Igreja se solidariza ao padre Júlio Lancelotti

  

     

No dia 11 de janeiro de 2006 a revista Veja publicou um artigo em que criticou durante o padre Júlio Lancelotti, que há mais de dez anos atua junto aos moradores de rua, aos jovens da FEBEM, às vítimas da Aids e a tantos outros excluídos da cidade de São Paulo. O padre defende os direitos dessas pessoas, principalmente de políticas públicas da prefeitura que, segundo ele, são práticas higienistas. O texto da Veja o acusa de cometer o “pecado da demagogia” e sem consultar o padre ou outras fontes que falassem do real trabalho desenvolvido, o criticou duramente. (Clique aqui e leia o artigo da Veja).

Há mais de um mês diversos setores da Igreja Católica no Brasil têm manifestado apoio ao padre Júlio Lancelotti, justamente por conhecer a idoneidade da sua ação pastoral.

Na última semana o site da CNBB Sul 1 publicou o artigo do professor Fernando Altemeyer Junior em defesa do sacerdote. Leia a seguir:

 

Veja erra gravemente!

Monsenhor Júlio Renato Lancelotti é o Vigário episcopal do povo de rua, há mais de dez anos, com muitas virtudes e particularmente a virtude da caridade vivida na esperança.
Padre Júlio é fiel servidor da Igreja de Cristo há vinte anos como presbítero. É homem de confiança do Cardeal Arcebispo de São Paulo e do Papa Bento XVI.
Se a repórter de VEJA não fosse tão demagoga, teria entrado na pequena Igreja da Rua Taquari e visto a fé viva do povo da Moóca, guiada por um sacerdote de missa diária e compromisso eterno.
Teria visto a luta dos amigos de S. Miguel Arcanjo contra o pecado e a injustiça. Teria visto como senhores e senhores se cotizam para ajudar a emancipar pessoas de situações de miséria e de exclusão.
A categoria "povo de rua" não é uma criação sua, nem neologismo, mas um conceito válido para compreender estas milhares de pessoas que vivem nas ruas paulistanas. Bastaria ler clássicos como: O mito da desterritorialização, de Rogério Haesbaert; ou Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social, de Fernando Braga da Costa; ou ainda, São Paulo, segregação, pobreza e desigualdades sociais, de Eduardo Marques e Haroldo Torres, organizadores.
Aliás, eivada de preconceitos está é a própria repórter ao classificar de forma simplista estes seres humanos de mendigos, menores abandonados e loucos. Pesquisa de orgãos de governo e de Universidades desmentem-na facilmente. Há famílias, há jovens, há gente desempregada, há drogados, há crianças, há estrangeiros, há negros, brancos, mestiços, há gente pobre e migrante, há gente que foi rica e ha até aqueles com universidade feita. Há muitos alcóolatras. Há muitos jovens. Há catadores de papel. Há trabalhadores e albergados. E há muitos: algo como dez a quinze mil pessoas. É, portanto, realidade complexa que exige respostas complexas.
Ela comete o pecado original do mau jornalista: matéria sem pesquisa e comprovação de dados. Criou ficção e não foi capaz de ver a realidade. Este é um paradoxo terrrível para um orgão semanal que denomina-se Veja.
As críticas do Padre Júlio quanto aos moldes higienistas da prática administrativa do candidato a prefeito da cidade de São Paulo, Sr. Andrea Matarazzo, são corretas e deixaram o rei tucano nú. Este é o nó da questão.
O que falta mesmo na cidade é política pública para esta população e as rampas não são de forma alguma solução para nada. Não solucionam nem o problema dos pobres, nem dos demais cidadãos como eles, e, muito menos a grave situação da segurança pública, a que todos (os que tem teto e os que não tem) estamos expostos. Nesta mesma semana em que estamos são os policiais que estão sendo aniquilados e metralhados em nossas ruas.
Os motivos de Padre Júlio são religiosos, antropológicos, políticos, humanos, filosóficos, teológicos, sentimentais, e
sobretudo, éticos. Por que tanta dicotomia entre religião e política? Medo da denúncia?
Quem quer construir um bode expiatório é a repórter, seu editor e a Veja ao permitir esta matéria mal feita.
A Igreja de Padre Júlio sempre foi abrigo, pequenina que é, desde seu nascedouro, pois os católicos da Móoca e Belenzinho, sempre souberam acolher os mais pobres com amor e carinho. Nenhuma grade jamais existiu nesta Capela e Igreja para impedir de receber qualquer ser humano. Se alguém dúvida, que vá e veja. Sem o tampa-olhos da Veja e sem demagogia.
Dezenas de comunidades na Zona Leste, particularmente aquelas que existem nas favelas se cotizaram para construir a comunidade S. Martinho. Para apoiar a Casa Vida, para acompanhar a Liberdade Assistida, para visitar a FEBEM, para valorizar as crianças, para apoiar os portadores de HIV-AIDS, para recolher e apoiar migrantes e sem teto. Tudo fizeram para rezar e partilhar na Catedral de Oração no bairro da Luz, esta construída com doação de budistas japoneses da Fundação Niwano. Fizeram com o Padre Júlio aquilo que todos sempre quiseram e buscaram numa cidade digna: transformar as vidas e construir igualdade social.
Padre Júlio é Doutor Honoris Causa pela PUC-SP.
Padre Júlio acaba de receber no rio de Janeiro, o Prêmio Alceu Amoroso Lima, das mãos do reitor da Universidade Candido Mendes.
Padre Júlio é diretor da Casa Vida I e II.
Padre Júlio é da Pastoral do Menor. E de inúmeras Comissões de Direitos Humanos.
Padre Júlio Renato Lancelotti é um homem transparente.
Não é conivente com o pecado nem com a injustiça.
É lamentável que a repórter Camila Antunes não tenha sido capaz de ver isto com discernimento e respeito. Ficam, portanto, algumas perguntas:
Teria sido ela e sua matéria manipulada pela direção da Veja? Muitos dizem que isto é a praxe corriqueira deste periódico?
Teria sido esta uma matéria encomendada por políticos incomodados? Quem a teria pago? Quantos foram os trinta dinheiros a trair o seguidor de Cristo?
Por que nenhuma linha foi transcrita sobre os assassinos da população de rua passado já mais de um ano da chacina? Seria isto conivência com a mentira?
A demagogia é de quem, afinal?
A revista quererá induzir seus leitores ao ódio e à discriminação? Se isto for verdade é muito grave. Merece de todos nós leitura crítica.
Continuarei a recomendar a todos que cancelem suas assinaturas desta Revista.
 

Prof. Fernando Altemeyer Junior
Professor universitário e atual Ouvidor Público da PUC-SP
R. Prof. Arnaldo João Semeraro, 621 V. Liviero - S. Paulo
tel 95401411
RG 8778504 SSP-SP.

 

.: Leia também: "O pecado da demagogia"