QUARESMA
40 dias de preparação para a Páscoa
O chamado Tempo Pascal é o mais importante de todo o Ano Litúrgico. Vai da Quarta-feira de Cinzas até a Solenidade de Pentecostes, ou seja, no presente ano de 2010, começou no dia 17 de fevereiro e terminará no dia 23 de maio. No centro deste tempo está a Vigília Pascal, que é o cume de todo o Ano Litúrgico, pois ela é a celebração não só da Páscoa de Cristo, Cabeça do corpo místico, a Igreja, como também da Páscoa dos Cristãos, os seus Membros. A Vigília da Páscoa se desdobra no Tríduo pascal (Quinta, Sexta e Sábado Santo) que celebram intensamente os mistérios da paixão e morte, sepultura e ressurreição do Senhor. No dizer de Santo Agostinho, este é o “sacratíssimo Tríduo do Crucificado, Sepultado e Ressuscitado”. E, como nós todos sabemos, a Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo é o centro de todo o mistério cristão, o fundamento de nossa fé.
É bom ter presente esta visão geral do Tempo Pascal, com os 40 dias da Quaresma, a Semana Santa, o Tríduo e Vigília Pascal, e os 50 dias de aleluia até a solenidade de Pentecostes. Ajuda a gente a viver mais intensa e integralmente os mistérios de Cristo celebrados ao longo do Ano Litúrgico (Natal, Páscoa, Festas e Solenidades, Nossa Senhora, os Santos, etc).
A Quaresma é esse tempo de preparação para a Páscoa que começa todo ano com a Quarta-feira de Cinzas. A cinza recebida é um símbolo muito expressivo do espírito que marca a Quaresma, com as suas características de conversão, penitência, oração e caridade. E a palavra Quaresma, cuja raiz significa 40, lembra os 40 dias durante os quais Jesus se preparou no deserto, com jejuns e orações, para a missão apostólica, que estava prestes a iniciar.
Jesus é o modelo da vida de oração, penitência e caridade dos cristãos. Nele se inspira a Quaresma para motivar a assumir, como exercícios quaresmais de conversão, os três exercícios de culto a Deus já conhecidos no Antigo Testamento: a oração, o jejum, a esmola (cf. Mt. 6,1-18).
Preparar-se bem para a Páscoa, em outras palavras, viver seriamente a Quaresma, ou ainda, praticar exercícios de oração, jejum e esmola, é mais do que uma questão de quantidade, de visibilidade ou publicidade. Jesus mesmo tem criticado, como no Evangelho acima citado, quem reza ou dá esmola ou faz jejum só para ser admirado, incensado ou reconhecido pelos outros. Ele orientou bem para uma oração sem muitas palavras, praticada no silêncio da voz e do coração, balbuciada no suspiro do Espírito que geme e suplica dentro do peito. Afirmou que a verdadeira penitência agradável a Deus é um coração puro, a prática do bem, uma vida com mais amor. Instruiu, quanto à caridade, para que a mão direita não saiba o que a esquerda faz, mas para que toda dádiva seja generosa e de mãos cheias, recomendando uma prática de lágrimas enxugadas, famintos saciados, feridos socorridos, caídos erguidos, órfãos e viúvas amparados, pão repartido, vida doada...
Neste ano em que a Campanha da Fraternidade Ecumênica nos convida a refletir sobre o tema Economia e Vida, sob o prisma da Palavra de Deus: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24), nossa penitência quaresmal deve contar com gestos concretos de partilha e justiça para com os pobres e os excluídos da economia de mercado, e com ações políticas efetivas de questionamento do sistema econômico dominante e excludente, e de proposições objetivas de inclusão e transformação social, política e econômica. Que não esmoreça jamais a esperança de que outro modelo de economia é possível, que defenda e promova a vida, o desenvolvimento sustentável, tanto social quanto ecológico, construa o bem comum e proporcione o bem-estar para o nosso povo, segundo propõe a Campanha da Fraternidade de 2010.
E que a preparação quaresmal seja uma oportunidade de conversão de vida, de mais vida com Deus e os irmãos, para que a Páscoa seja vida nova, plena e feliz, com justiça, dignidade e esperança para todos.
Dom Caetano Ferrari
Bispo Diocesano de Bauru