É possível constatar, sem muito esforço, que o mundo, nas últimas décadas, tem dado primazia ao econômico em detrimento do social e político. Esta “opção” é na verdade uma imposição do neoliberalismo entendido como “utopia ou teoria econômica que pretende dar uma explicação total do ser humano e da sua história em torno da economia. Faz da economia o centro do ser humano a partir do qual todo o resto se explica” (J. Comblin).
O Brasil é um país marcado por desigualdades sociais. Mesmo considerando as questões históricas, que geraram estruturas extremamente injustas, viciadas e concentradoras de renda, pode-se afirmar, com segurança, que o neoliberalismo tem acentuado ainda mais tais distorções. “A iniquidade do sistema consiste em conferir prioridade ao mercado, ao lucro, ao capital financeiro em vez de reconhecer e promover, em primeiro lugar, a dignidade da pessoa e o acesso dos pobres a níveis condignos de alimentação, trabalho, moradia, saúde, educação, lazer” (CNBB, Doc. 69). O neoliberalismo tem como programa principal o enfraquecimento do Estado a redução nos gastos sociais. Procura-se desmontar o “Estado de bem-estar social” por ser considerado um “dilapidador de receitas públicas”. O processo de desmonte começou nos anos 80, principalmente a partir do chamado Consenso de Washington (1989), e segue em curso.
É nesse horizonte que se situa a reflexão de Z. Bauman. Para ele não há como justificar a sobrevivência do Estado de bem-estar a não ser com a ética, pois na perspectiva neoliberal este não se justifica, é frequentemente atacado e sua sobrevivência ameaçada. Por essa razão, é fundamental reafirmar com explícita audácia a razão ética do Estado de investimento social, para que o argumento ético incida, um pouco mais, na atual sociedade marcada pelas estimativas de custo-benefício, lucro e outros mandamentos do mercado que reinam de modo supremo e constituem os princípios que organizam o “pensamento único”.
Urge, portanto, insistir na primazia da política e da ética sobre a economia. A sociedade justa é obra da política (cf. Deus caritas est, n.28) e as religiões podem contribuir para mobilizar as energias em vista da construção de um outro mundo possível. Trata-se de formar consciências éticas, críticas e esclarecidas, iluminadas pelos valores humanos e capazes de colocar a vida em primeiro lugar. Isso implica lutar por uma economia que esteja a serviço da vida - como propõe a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010, com qualidade e o mínimo decente para todos e todas.
Mulher e a ética do cuidado
A categoria ética do cuidado emerge de modo mais intenso e acentuado nas mulheres. Carol Gilligan, em “uma voz diferente”, indica a diferença no modo como homens e mulheres agem e se colocam diante dos outros. São dois modos distintos e predominantes, porém não exclusivos: a categoria da justiça para os homens e a do cuidado para as mulheres.
Gilligan recorda que os parâmetros de desenvolvimento feminino, não são os mesmos do masculino. A estrutura psíquica da mulher é organizada em torno de ser capaz de fazer e de manter associações e relacionamentos através do reconhecimento da necessidade de conexão. Isso faz com que o seu modo de vida seja mais criativo e cooperativo com forte acento nos relacionamentos e na capacidade de cuidar. A mulher é garantia e difusora da sensibilidade que se manifesta no cuidado. “Resgatar o cuidado é resgatar a dimensão feminina do ser humano” (L. Boff).
Como afirma Gilligan, “na vida como no Jardim do Éden a mulher tem sido a desviante”, no sentido positivo do termo. É ela que consegue deslocar e alargar a visão masculina, indicando por meio da sensibilidade e aguçada intuição o prioritário e essencial. A necessária revisão crítica dos esquemas morais masculinos e a consequente integração e reconciliação entre as óticas masculina e feminina colocarão as bases para a construção de um mundo melhor, pautado pela ética do cuidado pela vida a nós confiada e pela igualdade de gênero.
Parabéns mulheres pela merecida festa! Sigam sendo manifestação do rosto feminino de Deus.
Pe. Luiz Antonio Lopes Ricci
Vigário Geral da Diocese de Bauru e pároco da Paróquia São Cristóvão.