Liturgia e vida
Muito se fala acerca da liturgia de nossas comunidades, mas nem sempre as pessoas conseguem aproxima-la com a vida. Eu penso que quando a gente consegue conceituar a liturgia, descobrimos seu lugar no nosso dia-a-dia. Normalmente toda definição é redutiva. Sempre quando se tenta descrever ou conceituar algo haverá uma reserva de sentido não exprimível por meio de palavras acerca daquilo que se tenta conceituar. Não é diferente com a liturgia!
Podemos dizer que algumas palavras ‘cabem’ no universo semântico do que seja liturgia, mas não podemos dizer que tais palavras definem liturgia. Louvor, salvação/ libertação, ação/movimento, memória, rito, cura, movimento interior, busca/encontro, silêncio, símbolos... eis algumas palavras que nos remetem ao campo semântico de liturgia, mas não o esgota. Vejamos um pouco cada um deles:
Liturgia como louvor. A liturgia é o louvor a Deus de forma ritual, portanto, ação de graças.
Liturgia como salvação/libertação. A liturgia deve nos conduzir a um encontro com Deus (se preferir, experiência de Deus). Tal encontro necessariamente deverá provocar algo bom em nós. Esse algo bom é princípio de libertação que deverá nos conduzir a uma prática comprometida com os valores cristãos e consequentemente a adesão consciente à salvação trazida por Jesus.
Liturgia como ação/movimento. Sendo a liturgia o memorial da vida, paixão morte e ressurreição de Jesus Cristo, toda liturgia é ação. Ação sacerdotal de Jesus Cristo que se atualiza no hoje de nossa história e, por meio da Igreja (Povo Santo de Deus, ou assembléia litúrgica), através dos ritos sacramentais, promove um encontro de Deus com seu povo e com cada pessoa em particular.
Liturgia como memória. Todo ato litúrgico e em particular, a Eucaristia, nos remete a memória de Jesus Cristo: ‘fazei isto para celebrar a minha memória’ (Lc 22,19).
Liturgia como rito. O rito faz parte da vida humana. Há ritos para praticamente tudo que confere algum significado a existência humana. Desde uma festa de aniversario, casamento, batizado, nascimento, uma festa de debutante ou outra qualquer, ou no dia a dia na forma como se levanta da cama, ou como se come ou se toma banho, enfim em todos os momentos significativos encontramos formas rituais de ação. Na liturgia não poderia ser diferente, pois se trata de uma ação extremamente significativa na experiência humana com o transcendente.
Liturgia como cura. Se a liturgia tem como função nos ajudar na experiência com Deus, como conseqüência podemos obter curas. As feridas que trazemos em nossa alma só podem ser curadas por Deus. Toda liturgia processa uma reconstrução de nível interior. Ao ouvirmos a Palavra proclamada ou ao recebermos Jesus Eucarístico, iniciamos um processo, ainda que inconsciente, de cura interior.
Liturgia como movimento interior. Todo encontro com Deus deve ser provocativo. Não que Deus queira nos provocar ou nós a Ele no sentido negativo do termo. Provocar aqui deve ser entendido como sinônimo de desejo para o bem. O encontro com o Amor Supremo deve provocar em nós o desejo de amar... e o amor começa por dentro como movimento interior e depois se manifesta para fora através de nossos atos.
Liturgia como busca/encontro. Toda liturgia é sempre um encontro cuja iniciativa primeira é sempre de Deus.
Liturgia como silêncio. A liturgia nos ensina o silêncio. Você já pensou em ouvir o som do silêncio? Parece uma fala poética (ou absurda), mas a liturgia nos ensina que tudo tem um som, inclusive o silêncio. Ouvir o silêncio é ouvir o som sereno de Deus.
Liturgia como símbolo. Toda liturgia é simbólica. Todo símbolo deve provocar sentimentos nas pessoas, mexer com o emocional. É por isso que toda liturgia realça os sentimentos humanos agindo como uma catarse.
Ao final desses apontamentos tem-se a impressão de que se falou muito sobre liturgia, pois é, além do que foi dito, a liturgia ainda é aquilo que você, leitor deste texto, pensou que seja e que não foi aqui escrito. Como disse no início, descrever é reduzir... e toda experiência mística que engrandece o indivíduo e enaltece a vida só pode vir de Deus, só pode ser litúrgico.
Pe. Milton César Carraschi
Coordenador Diocesano de Pastoral